O eco de Luisa Piccarreta no discurso do Papa aos participantes da Conferência
promovida pelo Dicastério para as Causas dos Santos.

27/11/2025

Imagem: Vatican News

O recente discurso do Papa Leão XIV revela profundos pontos de contato com a espiritualidade da Serva de Deus Luisa Piccarreta, abrindo novas perspectivas para a compreensão eclesial de sua experiência.

Recentemente, o Santo Padre concluiu a Conferência promovida pelo Dicastério para as Causas dos Santos sobre “Misticismo, Fenômenos Místicos e Santidade” (10 a 13 de novembro de 2025). Ele proferiu um discurso que, com surpreendente clareza, recordou alguns princípios fundamentais da espiritualidade vivida e testemunhada pela Serva de Deus Luisa Piccarreta. O Papa enfatizou em seu discurso que a verdadeira vida mística não depende primordialmente de manifestações extraordinárias, mas da qualidade da união com Deus e, em particular, da conformidade do coração humano à Sua Vontade. O misticismo autêntico, disse ele, surge da consciência da “íntima união de amor com Deus” e encontra sua medida não em fenômenos excepcionais, mas na fidelidade diária à vontade divina. Segundo o Pontífice, mesmo as visões, os êxtases, as noites escuras ou outros eventos singulares que possam acompanhar a vida de alguns místicos não são, de modo algum, critérios decisivos para a santidade; pelo contrário, devem sempre ser avaliados com prudência e discernimento. O que realmente importa é “a plena e constante conformidade com a vontade de Deus”. De fato, esta constitui a substância da experiência mística e, ao mesmo tempo, o seu fruto eclesial mais maduro. Referindo-se a Santa Teresa de Ávila, o Papa recordou que “a perfeição suprema” não consiste em revelações ou fenômenos especiais, mas na perfeita união entre a vontade humana e a vontade divina. Estas palavras ressoam profundamente no coração da “Associação Luisa Piccarreta Pequenos Filhos da Divina Vontade”, que há anos promove o conhecimento e a vida segundo a vontade divina, inspirada pelos escritos de Luisa Piccarreta. De fato, a espiritualidade de Luisa não se limita a exortar os cristãos a fazerem a vontade de Deus; ela os convida a “viver” n’Ela, tornando-A o próprio princípio de sua vida espiritual e, em certo sentido, sua identidade mais profunda. Nos escritos de Luisa, viver na Divina Vontade significa abraçar um dom: participar, com sua própria liberdade, da própria vida divina, permitindo que a vontade de Deus se torne a luz, a força e o sopro da alma. É uma espiritualidade que não surge de fenômenos externos, mas de uma contínua transformação interior. Por meio dessa transformação, a humanidade do crente se une à humanidade de Cristo a tal ponto que as ações da criatura se harmonizam com as de Jesus, na simplicidade da vida cotidiana. É, portanto, significativo que o Papa tenha desviado sua atenção do excepcional para o essencial, precisamente em um discurso dedicado ao misticismo. Essa mudança de foco — do fenômeno para o conteúdo, do exterior para o âmago do mistério — parece criar uma ponte natural com o caminho proposto por Luisa Piccarreta. Mesmo a Serva de Deus, apesar de suas profundas experiências místicas, nunca enfatizou os aspectos extraordinários, mas sempre reconduziu tudo à centralidade da Divina Vontade: a única e verdadeira protagonista de sua vida espiritual. Por essa razão, o recente ensinamento do Papa pode ser lido como uma valiosa oportunidade para toda a família espiritual ligada à Divina Vontade. Por um lado, esse ensinamento convida a todos a um estudo sério, teologicamente fundamentado e eclesialmente obediente dos escritos de Luísa. Por outro lado, aponta para o espaço — vasto e luminoso — no qual a espiritualidade da Divina Vontade pode ser plenamente compreendida: a da união com Deus por meio de Sua Vontade, o cerne da santidade cristã. Nesse sentido, suas palavras parecem abrir um caminho: não uma confirmação imediata e definitiva, mas um encorajamento para prosseguir com confiança, humildade e discernimento no caminho rumo a uma aceitação eclesial cada vez mais clara da missão espiritual de Luisa. Portanto, o discurso do Papa surge como um convite à esperança. Se o critério de santidade é a conformidade com a vontade divina, então a espiritualidade de Luisa — centrada precisamente em viver essa conformidade de forma radical, amorosa e filial — fala uma linguagem profundamente sintonizada com a sensibilidade da Igreja de hoje. Para os Pequenos Filhos da Divina Vontade, este é um chamado à perseverança na oração, ao alimento da Palavra de Deus, à vida da Igreja com simplicidade e fidelidade e à capacidade de se deixar formar pelo ensinamento autorizado do Magistério. Viver na Divina Vontade significa, de fato, deixar-se transformar pelo amor — e o amor autêntico não teme a luz do discernimento eclesial, mas a deseja. Que as palavras do Papa se tornem, então, um renovado incentivo para vivermos mais profundamente na Divina Vontade, para valorizarmos humildemente o dom que recebemos e para caminharmos juntos com a Igreja, na certeza de que toda semente semeada na vontade de Deus sempre cresce em direção à plenitude.

Padre Vincenzo Bovino (Pároco da Igreja Santa Maria Greca, onde estão os restos mortais da Serva de Deus Luisa Piccarreta, em Corato, na Itália). Fonte: https://bookofheaven.org/2025/12/04/the-divine-will-at-the-heart-of-holiness/